Tentando engajar seu médico no seu estilo de vida de baixo carboidrato

Por que seu médico pode questionar uma dieta de baixo carboidrato

Keith Runyan, MD | 8 de março de 2016

Eu sou médico aposentado formado pela faculdade de medicina da Universidade de Emory em 1986. A grande maioria dos médicos que encontrei durante a minha carreira quer o melhor para seus pacientes e deseja melhorar a saúde deles.

Então se você ficou sabendo sobre os benefícios de um estilo de vida de baixo carboidrato através de livros, artigos publicados em revistas médicas, ou Deus me livre, pela INTERNET, você pode estar se perguntando por que seu médico não o apoia ou até mesmo o adverte contra isso.

A resposta é mais simples do que você imagina. Não é que seu médico não queira que você se beneficie. É mais provável que seu médico não tenha sido educado sobre os efeitos da dieta na saúde. Para que você possa compreender melhor isso, deixe-me contextualizar a formação médica.

Para entrar em medicina, em primeiro lugar, é preciso ser um excelente estudante. Em nosso sistema educacional atual, isso significa ser capaz de aprender e reter muita informação em um curto período de tempo e recordar com precisão essa informação em uma prova ou mais tarde na residência médica praticando com os pacientes. Não é preciso ser um pensador criativo ou inovador, ou questionar o que está sendo ensinado. Uma vez que um estudante inicia a faculdade de medicina, a quantidade e o ritmo de aprendizagem são ainda mais acelerados. Não há absolutamente tempo para questionar a validade do material.

A maioria dos estudantes de medicina ouve de seus sábios professores a frase “metade do que você acabou de aprender está errado, mas não sabemos qual metade.” No entanto, esse é um conceito difícil de aceitar, dado o tempo e esforço despendido em aprender todo o material. Essencialmente, a sensação dominante no final do curso de medicina é “eu sei que não sei tudo, mas pelo menos sei o que mais importa”.

A próxima peça deste quebra-cabeças é saber que nutrição mal é discutida na maioria (não todas) das faculdades médicas. Em Emory, em 1982, tivemos cerca de 2 semanas de educação em “nutrição”. Mas o que foi abordado é como o corpo metaboliza proteína, carboidrato e gordura, doenças decorrentes de deficiências nutricionais e as necessidades nutricionais para prevenir essas doenças. O fato de que muitas doenças crônicas como câncer, doença cardíaca, diabetes e doenças do aparelho digestivo eram raras antes da adoção da dieta ocidental não foi abordado. Não aprendi nada sobre isso até 2011 quando li “Good Calories, Bad Calories” de Gary Taubes.

Então, quando um estudante de medicina se forma, ele acha que sabe mais do que precisa saber, que alguma coisa pode estar errada e que precisa continuar aprendendo. Mas como tudo isso funciona na prática? Em seguida vem a residência médica. É quando o jovem médico aprende a cuidar de doentes na clínica hospitalar e ambulatorial. A carga de trabalho inicia devagar, mas acumula rapidamente. Somos ensinados a diagnosticar e tratar uma grande variedade de condições médicas desde auto-contidas até casos de alto risco de vida. Os tratamentos normalmente envolvem um ou mais medicamentos. A fim de aprender novas terapias ou compreender quais terapias atuais não são muito eficazes, deve-se despender mais tempo e esforço – nenhum dos quais são abundantes – lendo a literatura médica. O pouco tempo que resta para ler um pequeno subconjunto da vasta literatura médica geralmente é dedicado à própria especialidade, deixando de fora tópicos sobre nutrição e sua influência em doenças crônicas.

Alguns médicos já estarão familiarizados com a dieta de baixo carboidrato, e outros podem estar dispostos a aprender sobre isso e apoiá-lo, especialmente quando eles vêem que sua condição está melhorando como resultado. No entanto, outros médicos podem imediatamente detectá-la como não fazendo parte de seu arsenal e, portanto, como ineficaz ou possivelmente perigosa, especialmente se as palavras “cetose” ou “cetonas” forem mencionadas. Embora os médicos devessem saber a diferença entre “cetose nutricional” e “cetoacidose”, o termo “cetose nutricional” é mencionado somente no contexto de uma dieta cetogênica de baixo carboidrato e, portanto, não é discutido na faculdade de medicina. Então, o único referencial que a maioria dos médicos tem de “cetose” é uma das formas a seguir: cetose de inanição, cetoacidose diabética ou cetoacidose alcoólica, nenhum dos quais é bom.

Outra coisa que você deve saber sobre a prática da medicina é que médicos estão constantemente preocupados em serem processados por negligência. Um dos critérios para negligência médica é quando um médico não segue o “atendimento padrão”. Então se uma terapia é segura e eficaz, mas não geralmente reconhecida como “atendimento padrão”, o médico poderá ser acusado de negligência médica caso algo adverso aconteça ao paciente, seja ou não relacionado com a dieta de baixo carboidrato.

No geral, eu diria que apesar das evidências crescentes dos benefícios de uma dieta de baixo carboidrato para muitas condições médicas, em 2016 ela ainda não é aceita como “atendimento padrão”. Duvido que haja um súbito reconhecimento dos seus benefícios e segurança. Creio que haverá um movimento gradual em pequenos passos em direção à sua aceitação. Por exemplo, a Associação Americana de Diabetes, em suas diretrizes de cuidados médicos para o diabetes de 2016, diz o seguinte: “Como não há um único particionamento alimentar ideal de calorias entre carboidratos, gorduras e proteínas para pessoas com diabetes, a distribuição de macronutrientes deve ser individualizada, focando em total calórico e objetivos metabólicos”. Espero que você possa captar a sutileza dessa declaração. Não é um endosso específico à dieta de baixo carboidrato, mas é a aceitação da mesma. No entanto, os médicos que lerão essa frase no documento de 112 páginas podem não interpretá-la da mesma forma.

Conheço muitos médicos que endossam entusiasticamente uma dieta de baixo carboidrato para muitas condições médicas. A grande maioria deles experimentou benefícios para a própria saúde ao adotar a dieta, inclusive eu. Embora os médicos sejam ensinados a ignorar evidências anedóticas, fica mais difícil quando se trata de si mesmo.

Como engajar seu médico no seu estilo de vida de baixo carboidrato

Por razões que vão além do escopo deste artigo, é melhor ter o apoio de seu médico no estilo de vida de baixo carboidrato, pois isso afetará a necessidade ou a dosagem de muitos dos seus medicamentos. Pode haver efeitos colaterais que são facilmente corrigidos com o conhecimento de como funciona a dieta.

Dado o contexto acima exposto, eu acho que a melhor abordagem para engajar seu médico descrente é gentilmente incentivá-lo a ler algumas referências selecionadas sobre os benefícios de um estilo de vida de baixo carboidrato na sua condição médica específica. PubMed é uma boa fonte de artigos publicados em literatura médica. Será menos provável que um médico cético leia um livro sobre dietas de baixo carboidrato, mas você também pode tentar. No entanto, cada livro sobre dieta de baixo carboidrato que eu li tem muitas referências à literatura médica que você pode encontrar no PubMed e imprimir para seu médico. Haverá médicos que não ficarão convencidos mesmo que inúmeros artigos lhe sejam mostrados. Nesse caso, você pode querer procurar uma segunda opinião com um médico que tenha experiência com dietas de baixo carboidrato. Esta é a única lista que conheço (no Brasil). A dieta cetogênica de baixo carboidrato pode não ser indicada para todos, mas para mim e muitos outros com diabetes (e uma série de outras condições médicas), foi transformadora.

Dr. Keith Runyan é médico aposentado que praticou medicina de emergência, medicina interna, nefrologia e tratamento de obesidade durante seus 28 anos de carreira. Em 1998, desenvolveu diabetes tipo 1 aos 38 anos e teve dificuldades na manutenção de sua glicemia devido a episódios de hipoglicemia. Quando começou a exercitar-se regularmente em 2007, sua alimentação esportiva (açúcar) exacerbou ainda mais seu problema glicêmico. Preparando-se para um Ironman Triathlon de longa distância, ele descobriu a dieta cetogênica de baixo carboidrato, que era usada pelas pessoas com diabetes antes da descoberta da insulina em 1921 (em português). Ela foi ressuscitada pelo Dr. Richard K. Bernstein, e o Dr. Runyan adotou esse método de gerenciamento do diabetes. Para surpresa do Dr. Runyan, seus episódios hipoglicêmicos  melhoraram dramaticamente, bem como seu controle glicêmico. Ele permanece ativo praticando natação, ciclismo, mergulho e, mais recentemente, halterofilismo olímpico. Ele escreve sobre suas experiências para ajudar a educar os outros com diabetes em seu blog, Ketogenic Diabetic Athlete.

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