Nutrição paleolítica e perfil lipídico

A nutrição paleolítica melhora teores plasmáticos de lipídios em adultos hipercolesterolêmicos em maior medida do que as recomendações nutricionais tradicionais visando a saúde cardíaca

Robert L. Pastore, Judith T. Brooks, John W. Carbone
School of Health Sciences, Eastern Michigan University, Ypsilanti, MI
NUTRITION RESEARCH 35 (2015) 474 – 479

Resumo

Pesquisas recentes sugerem que as recomendações tradicionais de dieta saudável à base de grãos, que substitui a gordura saturada por carboidratos e reduz a ingestão de gordura total, podem resultar em proporções desfavoráveis de lipídios plasmáticos, com reduzida lipoproteína de alta densidade (HDL) e uma elevação de lipoproteína de baixa densidade (LDL) e triglicérides (TG). O presente estudo testou a hipótese de que uma dieta paleolítica sem grãos induziria perda de peso e melhoraria o colesterol plasmático total e os teores de HDL, LDL e TG em adultos não-diabéticos com hiperlipidemia em maior medida do que uma dieta saudável à base de grãos com base nas recomendações da American Heart Association. Vinte voluntários (10 homens e 10 mulheres), com idade entre 40 a 62 anos, foram selecionados com base no diagnóstico de hipercolesterolemia. Os voluntários não estavam tomando quaisquer medicamentos para reduzir o colesterol e aderiram a uma dieta tradicional visando a saúde cardíaca por 4 meses, seguida de uma dieta paleolítica por 4 meses. Análise de regressão foi utilizada para determinar se mudanças no peso corporal contribuíram para as alterações observadas nos teores plasmáticos de lipídios. Diferenças na ingestão nutricional e medições de lipídios plasmáticos foram avaliadas usando análise de variância de medidas repetidas. Quatro meses de nutrição paleolítica reduziram significativamente (P < 0,001) o colesterol total, LDL e TG médios e aumentaram o HDL (P < 0,001), independentemente de alterações no peso corporal, tanto em relação ao à dieta base quanto à dieta tradicional visando a saúde cardíaca. A nutrição paleolítica oferece um potencial promissor de manejo nutricional de dislipidemia em adultos cujo perfil lipídico não melhorara após seguir as recomendações nutricionais mais tradicionais visando a saúde cardíaca.

Abreviaturas:

AHA: American Heart Association; DCV: doença cardiovascular; HDL: lipoproteína de alta densidade; LDL: lipoproteína de baixa densidade; CT: colesterol total; TG, triglicérides.

  1. Introdução

Estimativas recentes sugerem que 17% dos adultos dos E.U.A. têm hiperlipidemia [1], e 71 milhões de adultos americanos têm elevação de lipoproteína de baixa densidade (LDL) [2]. As diretrizes nutricionais de 2010 para os americanos e as recomendações gerais vigentes da American Heart Association (AHA) para o manejo nutricional da hipercolesterolemia são para limitar a gordura saturada na dieta, com maior obtenção de energia derivada de carboidratos, em uma dieta caloricamente adequada para o indivíduo [3-5]. Há evidências, no entanto, de que tal substituição de macronutrientes possa resultar em maior risco de aterosclerose, com redução de lipoproteína de alta densidade (HDL) e elevação de proteína C-reativa, de triglicérides (TG), de lipoproteína de muito baixa densidade, de LDL de menor tamanho e de LDL oxidado [6-11].

A alimentação paleolítica, um padrão nutricional baseado em carnes, frutas e legumes e desprovido de grãos e laticínios, tem sido utilizada com sucesso para melhorar biomarcadores de doença cardiovascular (DCV) em grupos de alto risco (por exemplo, portadores de diabetes tipo 2, de obesidade e de síndrome metabólica), com reduções significativas em peso corporal, em colesterol total (CT), em TG e em pressão arterial, bem como maior HDL e tolerância à glicose [12-15]. Similarmente, melhorias nos lipídios plasmáticos também têm sido relatadas em indivíduos não-obesos e sedentários após 10 dias de dieta Paleolítica [16]. As populações de caçadores-coletores dos 5 continentes, com práticas alimentares que são a base da nutrição paleolítica, regularmente passam dos 60 anos sem nenhum sinal de DCV e com níveis médios de CT entre 2.6 e 3.6 mmol/L (100-140 mg/dL) e LDL médio de 1,3 a 1,8 mmol/L (50-70 mg/dL) [17]. Esses níveis de LDL estão associados com regressão de ateroma em pacientes de DCV após agressiva intervenção medicamentosa [18].

Com relação a dietas tradicionais para diabéticos e mediterrânea, uma dieta paleolítica é mais saciante por caloria consumida [19,20]. Esse efeito pode levar a um consumo enrgético total mais baixo sem restrições energéticas definidas [12]. Em 14 indivíduos saudáveis, 3 semanas de dieta paleolítica levaram à uma diminuição média da ingestão calórica em 36% em relação à dieta base [21]. Da mesma forma, o consumo energético foi significativamente reduzido em pacientes com doença cardíaca isquêmica após uma dieta paleolítica, comparada a uma dieta mediterrânea [19].O presente estudo foi projetado para avaliar os efeitos de 4 meses de nutrição paleolítica na ingestão alimentar e nos lipídios plasmáticos em adultos hipercolesterolêmicos que tinham anteriormente aderido a 4 meses sob recomendações nutricionais da AHA visando a saúde cardíaca. Formulamos a hipótese de que a dieta paleolítica conduziria à maior perda de peso e à melhora do perfil lipídico em voluntários em maior medida do que uma dieta tradicional à base de grãos visando a saúde cardíaca.

  1. Materiais e Métodos

2.1. Participantes

Após aprovação pelo comitê de revisão de pesquisa em humanos da Eastern Michigan University, 46 homens e mulheres não-diabéticos foram avaliados para participação neste estudo de duas fases  de intervenção nutricional (dieta AHA e paleolítica). Do total, 10 homens (9 brancos e 1 hispânico) e 10 mulheres (8 brancas e 2 hispânicas) preencheram os critérios de inclusão em diagnóstico de hipercolesterolemia nos 14 meses precedentes e abstinência de medicamentos que influenciam os teores de lipídios no sangue (tabela 1). Todos os sujeitos assinaram o consentimento informado.

Tabela 1 – Características de base dos voluntários

Total

(n = 20)

Homens

(n = 10)

Mulheres

(n = 10)

Idade (anos) 53 ± 7 53 ± 7 52 ± 7
Altura (cm) 171 ± 8 176 ± 6 166 ± 6 a
Peso (kg) 85 ± 16 93 ± 11 77 ± 17 a
IMC (kg/m2) 28.8 ± 5.0 30.1 ± 4.5 27.6 ± 5.4
CT (mmol/L) 6.1 ± 0.6 6.0 ± 0.5 6.2 ± 0.7
Colesterol LDL (mmol/L) 4.0 ± 0.6 4.2 ± 0.6 3.8 ± 0.5
Colesterol HDL (mmol/L) 1.37 ± 0.46 1.16 ± 0.33 1.60 ± 0.48 a
TG (mmol/L) 1.6 ± 0.7 1.5 ± 0.6 1.7 ± 0.8

Nota: Valores são médias ± DP
a Diferente de homens, P < 0,05.

2.2. Delineamento experimental

O estudo foi projetado e conduzido como uma intervenção nutricional de duas fases, com os voluntários servindo como seus próprios controles. Amostras de sangue de base foram coletadas e analisadas para os teores de TC, HDL, LDL e TG para confirmar hipercolesterolemia. Os voluntários então aderiram às orientações nutricionais AHA visando a saúde cardíaca por 4 meses (fase 1), seguidos por 4 meses de aderência à dieta paleolítica (fase 2). Amostras de sangue foram coletadas e analisadas na conclusão de cada fase.

2.3. Intervenções nutricionais

Todos os voluntários receberam informações sobre as dietas e amostras de cardápios antes de cada fase do estudo. As orientações nutricionais específicas estão incluídas na tabela 2. Além disso, as diretrizes da AHA enfatizaram uma dieta rica em frutas e legumes, escolhendo alimentos integrais, ricos em fibras, alimentos preparados com pouco ou sem sal e consumo de peixe pelo menos duas vezes por semana, minimizando o consumo de alimentos e bebidas com açúcares adicionados [4,5]. A dieta paleolítica baseou-se em legumes, proteína animal magra, ovos, nozes e frutas, mas excluiu todos os laticínios, grãos e leguminosas [12]. Limitações energéticas não foram implementadas para a fase da dieta paleolítica. Da mesma forma, não foram implementadas limitações para a fase da dieta AHA,exceto pelo estabelecimento de um máximo calórico – baseado em recomendações vigentes da AHA de acordo com a idade, sexo, altura e peso de cada voluntário [22] – to possibilitar a adesão às recomendações nutricionais da AHA que são expressas em consumo energético total (por exemplo, < 7% energia diária oriunda de gorduras saturadas). Os voluntários não consumiram quaisquer suplementos nutricionais durante o estudo, com exceção de vitamina D e cálcio. Mulheres e homens consumiram 800 ui/d de vitamina D3; as mulheres também consumiram 500 mg/d de citrato de cálcio. Da mesma forma, os voluntários não tomaram quaisquer medicamentos ao longo do estudo, e uso de fármacos foi limitado a ocasional ibuprofeno para alívio de dores de cabeça e musculoesquelética.

A observância das orientações nutricionais foi monitorada através de uma revisão quinzenal de diários de dieta e reforçada com sessões mensais de aconselhamento nutricional. O consumo energético e de macronutrientes foi determinado por uma série de recapitulações da dieta para dez períodos de 24 horas registradas no início do estudo e durante cada fase da dieta. Os voluntários foram instruídos a manter os níveis de atividade física de base durante toda a duração do estudo, com atividade física monitorada através de revisão quinzenal de diários de atividade. O gasto de energia através de atividade física manteve-se constante em relação à base para todos os voluntários durante toda a duração do estudo.

Tabela 2 – Orientações nutricionais para cada fase de intervenção

Fase 1: AHA [4,5]

• < 7% da energia diária derivada de gorduras saturadas

• < 1% de energia diária derivada de gorduras trans

• < 300 mg de ingestão de colesterol por dia

• < 2400 mg sódio por dia

Fase 2: Paleolítica (adaptada de [12])

• Abster-se de todos os laticínios, grãos e leguminosas

• Não mais do que ½ xícara de batata por dia

• Não mais do que 30 g de frutas secas por dia

• Não mais do que 120 mL de vinho por dia

• Sem limite para o consumo de ovos

2.4. Medição do peso corporal

O peso corporal foi medido após jejum noturno no início e mensalmente ao longo do estudo. Vestindo roupas semelhantes para todas as medições, os voluntários removeram sapatos, cintos, joias e esvaziaram os bolsos antes de subir numa balança antropomértrica mecânica (Detecto 237 , Webb City, MO, EUA). O peso foi registrado com precisão de até um décimo de libra. Dados do peso corporal são apresentados em quilogramas.

2.5. Avaliação dos lipídios plasmáticos

Foram determinados os teores plasmáticos base de lipídios e subsequentemente ao término de cada fase de 4 meses de intervenção nutricional. Após jejum noturno, sangue venoso foi coletado e teores plasmáticos de CT, HDL, LDL e TG foram medidos a partir de amostras plasmáticas processadas com EDTA e lítio-heparina e técnicas enzimáticas padrão, conduzidas pelo laboratório Corporation of America (Labcorp, Nova York, NY, EUA). Dados de lipídios plasmáticos são apresentados em mmol/L.

2.6. Análise estatística

As características de base dos voluntários são descritas usando estatística descritiva comum. Usou-se análise multivariada para determinar as diferenças de características de base dos voluntários entre sexos (mulheres x homens). Análise de regressão foi utilizada para determinar se a mudança no peso corporal contribuiu para as alterações observadas nos teores plasmáticos de lipídios. Diferenças na ingestão nutricional e medições de lipídios plasmáticos foram avaliadas usando a análise de variância com medidas repetidas com as dietas (dieta base x AHA x Paleolítica) como um fator intraindivídual e sexo (homens x mulheres) como um fator interindividual. O nível de significância estatística foi definido em P < 0,05. Quando uma interação significativa foi observada, foram feitas comparações emparelhadas usando a correção de Bonferroni. Médias marginais são relatadas para todos os efeitos principais e de interação: dieta, sexo ou dieta por sexo. Os dados foram analisados usando o programa IBM SPSS Statistics for Windows (versão 22; IBM Corp) e são apresentados como média ± DP. O tamanho do efeito das mudanças observadas nos teores de lipídios plasmáticos foi determinado utilizando d de Cohen, com os seguintes limites:

“pequeno” d = 0,2; “médio” d = 0,5; “grande” d = 0,8; e “muito grande” d = 1,3.

  1. Resultados

3.1. Ingestão nutricional

Ao longo do estudo, a ingestão energética e de quantidades absolutas de cada macronutriente foi significativamente maior entre homens do que entre mulheres (P < 0,001, Tabela 3). A ingestão energética foi significativamente menor durante a fase de dieta AHA em relação à dieta base, com ingestão energética na dieta Paleolítica significativamente inferior ambas dietas base e AHA (P < 0,001). A ingestão média de carboidratos não diferiu entre as dietas base e AHA, mas foi significativamente mais baixa durante a fase da dieta Paleolítica (P < 0,001). Em contraste, a ingestão proteica média não diferiu entre as dietas base e AHA, mas foi significativamente maior durante a fase da Paleolítica (P < 0,001). A ingestão de gordura foi significativamente diferente entre cada fase, com a mais alta ingestão na dieta base, e a mais baixa, durante a fase da dieta AHA (P < 0,001).

Tabela 3 – Ingestão energética e absoluta e relativa de macronutrientes durante as fases das dietas

Energia (MJ) Carboidrato (g) Proteína (g) Gordura (g)
Homens Mulheresc Homens Mulheresc Homens Mulheresc Homens Mulheresc
Base 13.2 ± 0.9 10.1 ± 1.4 405 ± 29, 51% 320 ± 61, 53% 119 ± 34, 15% 90 ± 20, 15% 117 ± 12, 33% 86 ± 16, 32%

 

AHA 12.0 ± 1.1 a 9.5 ± 1.3 a 400 ± 46, 56% 341 ± 40, 60% 148 ± 38, 21% 94 ± 23, 17% 73 ± 6 a, 23% 58 ± 8 a, 23%
Paleolítica 8.8 ± 1.6 b 7.2 ± 1.1 b 121 ± 47 b, 23% 97 ± 26 b, 23% 197 ± 26 b, 37% 160 ± 23 b, 37% 93 ± 14 b, 40% 76 ± 12 b, 40%

Nota: Os valores absolutos são médias de macronutrientes ± DP. Homens, n = 10; mulheres, n= 10. Valores em itálico representam o percentual de energia obtida de cada macronutriente.
a Diferente do valor de base, P < 0,001.
b Diferente do valor de base e da AHA, P < 0,001.
c Diferente de homens, P < 0,001.

3.2. Peso corporal

O peso corporal médio foi maior para homens do que para mulheres em todas as medições (P < 0,05, Tabela 4). Uma interação de dieta-por-sexo (P < 0,05) foi observada para a redução de peso corporal ao longo das 2 fases de dieta. Quatro meses de adesão às recomendações nutricionais AHA visando a saúde cardíaca reduziram o peso corporal médio em 3,3 ± 2,7 kg para os homens em relação à dieta base (P < 0,001), com uma redução adicional de 10,4 ± 4,4 kg após 4 meses de adesão à recomendação nutricional Paleolítica (P < 0,001, Tabela 4). O peso corporal médio não mudou significativamente para as mulheres ao final da fase de dieta AHA em relação à dieta base (P > 0,05), embora a dieta paleolítica tenha induzido uma perda significativa de peso de 8,1 ± 5,9 kg em comparação com a AHA (P < 0,001, Tabela 4).

Tabela 4 – Peso corporal em cada fase

  Total (n = 20) Homens (n = 10) Mulheres (n = 10) c
Base 84.7 ± 16.4 92.8 ± 10.8 76.6 ± 17.4
AHA 82.8 ± 15.5 89.5 ± 9.6 a 76.1 ± 17.7
Paleolítica 73.5 ± 11.4 79.1 ± 6.5 b 68.0 ± 12.7 b

Nota: Valores são médias ± DP.
a Diferente do valor de base, P < 0,001.
b Diferente do valor de base e da AHA, P < 0,001.
c Diferente de homens, P < 0,05.

3.3. Teores plasmáticos de lipídios

O colesterol total, o LDL, e os teores de TG não foram significativamente diferentes entre homens e mulheres em qualquer ponto de medição (P > 0,05). Além disso, a mudança de peso corporal em todas as fases nutricionais não esteve significativamente correlacionada a alterações no CT, LDL, HDL ou TG (P > 0,05) da dieta base para AHA (r2 = 0,001, 0,007 0,060 e 0,018 respectivamente), nem da AHA à Paleolítica (r2 = 0.032, 0,022, 0,002 e 0,002 respectivamente).

O CT médio sofreu uma “pequena” diminuição de 3% (d = 0,3, P < 0,001) da dieta base para a AHA, seguida por uma diminuição “muito grande” de 20% (d = 1.9, P < 0,001), da AHA à Paleolítica (Tabela 5). Da mesma forma, o LDL médio sofreu uma “pequena” diminuição de 3% (d = 0,2, P < 0,001) da dieta base para a AHA, seguida por uma “grande” redução de 36% (d = 2,1, P < 0,001) da AHA à Paleolítica (Tabela 5).

O TG médio não mudou da base para a AHA, mas teve uma diminuição “muito grande” de 44% (d = 1,3, P < 0,001) da AHA à Paleolítica (Tabela 5). Como esperado, o HDL médio foi maior (P < 0,05) para mulheres do que para homens. Os teores médios de HDL não se alteraram significativamente da dieta base para a AHA, mas sofreram um “grande” aumento de 35% (d = 1,2, P < 0,001) da AHA à Paleolítica (Tabela 5).

Tabela 5 – Teores plasmáticos de lipídios durante cada fase

TC

(mmol/L)

LDL colesterol (mmol/L) TG

(mmol/L)

HDL cholesterol (mmol/L)
Homens Mulheres c
Base 6.1 ± 0.6 4.0 ± 0.6 1.6 ± 0.7 1.17 ± 0.33 1.59 ± 0.48
AHA 5.9 ± 5.9 a 3.9 ± 0.6 a 1.6 ± 0.6 1.14 ± 0.29 1.52 ± 0.50
Paleolítica 4.7 ± 0.7 b 2.5 ± 0.7 b 0.9 ± 0.3 b 1.62 ± 0.37 b 1.97 ± 0.25 b

Nota: Os valores são médias ± DP. n = 20 (10 homens e 10 mulheres).
a Diferente do valor de base, P < 0,001.
b Diferente do valor de base e da AHA, P < 0,001.
c Diferente de homens, P < 0,05.

  1. Discussão

As conclusões essenciais deste estudo de intervenção nutricional em 2 fases são melhoras significativas nas concentrações plasmáticas de CT, HDL, LDL e TG de adultos hipercolesterolêmicos, independentemente de alterações do peso corporal, após 4 meses de dieta Paleolítica em relação a 4 meses de orientações nutricionais tradicionais visando a saúde cardíaca. Esses resultados confirmam a hipótese original de pesquisa e são semelhantes às melhoras observadas no perfil lipídico após intervenções de 10 dias [16] e 3 meses [12] de dieta Paleolítica.

A dieta Paleolítica aumentou em popularidade nos últimos anos, conforme evidenciado por uma crescente proliferação de Web sites, blogs, livros, endossos de celebridades e sua adoção geral pela Comunidade Cross Fit [23]. A dieta também tem recebido críticas, particularmente ao potencial aumento no risco aterogênico devido à maior ingestão de gordura e de carne [24]. Quando comparada com uma dieta típica ocidental americana, no entanto, uma dieta Paleolítica contém 3 vezes mais fibras e potássio, 2 vezes mais gorduras poli-insaturadas e monoinsaturadas, 4 vezes mais ácidos graxos omega-3 e 4 vezes menos sódio [25-27]. Uma dieta paleolítica geralmente contém 12,5 vezes mais potássio do que sódio e fornece densidade nutricional suficiente para facilmente exceder as necessidades nutricionais recomendadas vigentes para as vitaminas A, B1, B2, B3, B6, B9, B12, C e E, bem como fósforo, magnésio, ferro e zinco [28].

Embora o presente estudo não tenha implementado limites calóricos como um componente da intervenção nutricional Paleolítica, os voluntários perderam significativamente mais peso durante a fase Paleolítica do que durante a fase AHA. Um dos efeitos demonstrados de se consumir uma dieta Paleolítica é um notável aumento na saciedade [12,19-21]. Esperávamos que essa maior saciedade fosse conduzir à perda de peso e contribuir para melhoras nos teores plasmáticos de lipídios [29], mas a mudança no peso corporal não correlacionou-se significativamente com as alterações observadas nos teores de lipídios. Frassetto et al [16] mostraram anteriormente melhoras comparáveis nos lipídios em indivíduos obesos após 10 dias de alimentação paleolítica, ao mesmo tempo em que o consumo energético foi controlado para garantir que nenhuma mudança ocorresse no peso corporal. Da mesma forma, 12 semanas em uma dieta Paleolítica melhoraram a tolerância à glicose em maior medida do que uma dieta Mediterrânea em pacientes diabéticos tipo 2 intolerantes à glicose com doença cardíaca isquêmica, independentemente de mudanças na circunferência da cintura [13]. Sem nenhuma relação significativa entre mudança de peso corporal e mudança nos teores plasmáticos de lipídios, os presentes resultados, da mesma forma, sugerem que as melhoras observadas no perfil lipídico foram o resultado de mais do que apenas perda de peso, e que a composição das duas dietas pode ter exercido uma influência significativa sobre estes parâmetros.

Padrões nutricionais das sociedades atuais de caçadores-coletores, com práticas alimentares semelhantes às incorporadas na dieta paleolítica, revelam proporções nutricionais de macronutrientes que diferem marcadamente das tradicionais recomendações nutricionais para prevenção e tratamento de DCV [30]. A base das diretrizes nutricionais de 2010 para os americanos e das diretrizes da AHA visando a saúde cardíaca consiste em grãos (preferencialmente grãos integrais), frutas, legumes e laticínios de baixo teor de gordura ou sem gordura [3,4]. Em contraste, o consumo energético das sociedades de caçadores-coletores é predominantemente de alimentos de origem animal (45-65%), proporcionando uma fração significativa do consumo energético em proteína (19% – 35%), equilibrado com consumo de carboidrato vegetal (22% – 40%) [30]. A ingestão de gordura na dieta paleolítica normalmente excede 30% da energia total [17], como foi o caso do presente estudo.

Dietas centradas em proteína magra e peixes ricos em ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa ômega-3 têm potencial para alterar lipídios séricos de forma supostamente protetora contra aterosclerose [7,31,32]. Em contraste, caçadores-coletores que adotam dietas agrícolas à base de grãos começam a exibir fatores de risco de DCV, incluindo perfis lipídicos anormais, em menos de 3 meses [33-35]. No presente estudo, a troca de uma dieta saudável à base de cereais por uma dieta paleolítica livre de grãos melhorou significativamente CT, HDL, LDL e TG, indicando provável diminuição no risco de DCV. Tais melhoras são mais comumente associadas com intervenções medicamentosas, com estatinas como a principal classe de fármacos prescritos para anomalias do perfil lipídico [36]. Em um grande estudo de coorte retrospectivo, no entanto, as estatinas foram descontinuadas, pelo menos temporariamente, por 53% dos sujeitos devido à miopatia, náusea, neuropatia, e/ou elevação das enzimas hepáticas [37]. Além disso, o tratamento com certas estatinas tem sido associado a um risco aumentado de diabetes não preexistente [38]. Os presentes achados destacam o potencial cardioprotetor de uma abordagem nutricional para o grande número de indivíduos hipercolesterolêmicos que têm sido tratados sem sucesso com manejo nutricional tradicional ou que apresentaram efeitos colaterais negativos associados à terapia medicamentosa.

As limitações do atual estudo incluem o tamanho relativamente pequeno e homogeneidade (ou seja, predominantemente brancos) do grupo de voluntários. Com DCV sendo responsável por um terço da diferença de mortalidade entre americanos afrodescendentes e brancos [39], um contingente maior e mais diversificado permitiria uma compreensão mais ampla dos achados potenciais. Similarmente, embora o atual estudo tenha implementado uma intervenção nutricional paleolítica mais longa do que alguns relatos anteriores, uma duração mais longa permitiria uma melhor compreensão se essas mudanças observadas podem ser mantidas ao longo do tempo. Resultados de uma intervenção Paleolítica de 2 anos mostraram uma perda das melhoras de 6 meses aos 24 meses [40].

Além disso, o atual projeto de estudo permitiu que um tendenciamento advindo da sequência das dietas influenciasse os resultados, com todos os voluntários passando por uma dieta tradicional visando a saúde cardíaca antes da intervenção Paleolítica. Embora a uniformidade da modelagem de equações estruturais para todas as variáveis dependentes sugira que a ordem das dietas teve um efeito mínimo sobre a validade interna, o estudo pode ser melhorado através de um delineamento do tipo crossover com um intervalo entre tratamentos nutricionais. Finalmente, visto que obesidade e DCV têm sido associadas com inflamação crônica [41], seria oportuno incluir a avaliação de marcadores inflamatórios (por exemplo, interleucina 6, fator de necrose tumoral α e proteína C-reativa de alta sensibilidade) em futuras avaliações dos efeitos da nutrição paleolítica em fatores relacionados com a saúde cardiovascular em indivíduos obesos.

Em resumo, a adesão a uma dieta paleolítica por 4 meses diminuiu significativamente CT, LDL e TG, embora aumentando o HDL, independentemente de alterações no peso corporal, em relação a uma dieta baseada em recomendações tradicionais visando a saúde cardíaca. Esses achados indicam o potencial das recomendações nutricionais paleolíticas em mediar benefícios cardioprotetores naqueles com hipercolesterolemia estabelecida.

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