Pão branco e pão integral são a mesma coisa

Pães dietéticos: mito ou realidade?

B. Mesci, A. Oguz, H.G. Sagun, M. Uzunlulu, E.B. Keskin, D. Coksert
Goztepe Training and Research Hospital, Diabetes Clinic, Turkey
Diabetes Research and Clinical Practice 81 (2008) 68–71

Resumo

Objetivos: Avaliar as diferenças em efeitos agudos de pão de trigo integral, pão de farelo de trigo e pão de centeio – considerados pães dietéticos (de baixas calorias!) – sobre a glicemia e insulinemia em pacientes com diabetes tipo 2, em comparação com pão branco de farinha trigo.

Métodos: Cento vinte e um pacientes com diabetes tipo 2 foram randomizados em três grupos, alimentados com pão de trigo integral, pão de farelo de trigo e pão de centeio. Cada grupo comeu 100 g de pão com água em 10 minutos. Medições de glicemia foram feitas a cada 30 min em um período de 2 h. A insulinemia foi medida em jejum e na segunda hora nos pacientes que não usam insulina. Os mesmos procedimentos foram repetidos no dia seguinte, com pão branco para cada grupo.

Resultados: Nenhuma diferença significativa foi encontrada nos efeitos glicêmicos ou insulinêmicos entre os quatro tipos de pães quando comparados um ao outro (p = 0,093 para o efeito glicêmico e p = 0,297 para o efeito insulinêmico).

Conclusão: Os três tipos diferentes de pão consumidos como alternativa ao pão branco, na Turquia, aumentam a glicemia de pacientes diabéticos similarmente ao pão branco.

  1. Introdução

O pão é um dos principais elementos na dieta do povo turco. É uma crença comum de que alguns tipos de pão são mais apropriados para a dieta de um diabético, pois têm menor efeito hiperglicêmico. Muitos dos pacientes que visitam nossa clínica relatam que comem pão de farelo de trigo, pão de centeio e pão de trigo integral como parte de sua dieta, sem considerar a quantidade consumida. O objetivo deste estudo foi explicar os efeitos agudos dos pães integral, de farelo de trigo e de centeio – considerados como pães dietéticos – sobre a glicemia e insulinemia em pacientes com diabetes tipo 2, em comparação com pão branco de trigo.

  1. Sujeitos, materiais e métodos

O estudo envolveu 149 pacientes diabéticos tipo 2 acompanhados no Hospital de Formação e Pesquisa Goztepe; todos relataram que costumavam consumir 50-100 g de pão no café da manhã. Doença cardíaca severa, falência hepática e renal, reação de hipersensibilidade aos alimentos teste, distúrbios de mastigação e deglutição, má absorção, glicemia de jejum maior que 199 mg/dL e estar em tratamento intensivo com insulina foram critérios de exclusão. O protocolo de estudo foi aprovado pelo nosso comitê de ética local (data de aprovação: 11 de janeiro de 2007, nº da decisão: 34/C) e projetado de acordo com a Declaração de Helsinque de 1975, revisada em 1983. Os pacientes deram consentimento por escrito para a participação e foram randomizados em três grupos principais, que receberam pão de trigo integral, de farelo de trigo e de centeio, respectivamente. Os pacientes, foram convidados para a clínica de diabetes após jejum de pelo menos 12 h em dias diferentes. Glicemia de jejum foi medida a partir do sangue capilar e sangue venoso foi coletado para medição de insulina plasmática em jejum apenas em pacientes que não usam insulina. O primeiro grupo comeu 100 g de pão de trigo integral. O segundo, 100 g de pão de farelo de trigo e o terceiro, 100 g de pão de centeio com 0,5 L de água em um período de 10min. A glicemia capilar foi medida a cada meia hora até a segunda hora a partir do momento em que eles começaram a comer. Sangue venoso também foi coletado para a medição de insulinemia na segunda hora de 60 pacientes (20 pacientes de cada grupo) cujos níveis de insulina em jejum tinham sido medidos. Os mesmos procedimentos foram repetidos no dia seguinte com pão branco para cada grupo.

O pão branco usado no estudo foi feito apenas de farinha branca, que foi separada do germe e do farelo fino e grosso do trigo. O pão de farelo de trigo foi feito de farinha branca com adição do farelo fino do grão de trigo e não incluiu qualquer farelo grosso ou germe de trigo. O pão de trigo integral foi feito de farinha de trigo integral. No processo de fabricação do pão integral, o trigo integral usado contém as mesmas proporções que na natureza de farelo grosso, farelo fino e germe de trigo. A preparação do pão de centeio, feito de farinha de centeio e de trigo contendo o farelo grosso e germe de trigo não excluiu qualquer conteúdo de trigo ou de centeio, incluindo o farelo grosso e o germe; de forma que a quantidade de farelo correspondia aos níveis naturais. Os valores nutricionais dos pães são apresentados na Tabela 1. O pão usado no estudo foi preparado em embalagens de pãezinhos contendo diferentes tipos de pães de 50 g (pão integral, de farelo de trigo, de centeio e pão branco).

Medições da glicemia foram feitas a partir de sangue capilar utilizando glicosímetro (Johnson & Johnson Company Life Scan One touch horizon). Os valores de insulina foram medidos com dispositivo hormonal modular Hitachi E170, kit de insulina Roche.

Tabela 1 – Valor nutricional dos diferentes tipos de pães

Valor nutricional (em 100 g) trigo integral farelo de trigo centeio pão branco
Proteína (g) 8.15 9.16 8.82 9
Carboidrato (g) 40.5 40.4 40 49
  1. Análise estatística

Respostas glicêmicas e insulinêmicas foram avaliadas pelas diferenças de glicemia e de insulinemia entre as medidas iniciais e após duas horas. O teste t de Student pareado foi usado para comparar os efeitos de diferentes tipos de pães na glicemia e insulinemia, e ANOVA 1 fator foi utilizada para comparar os efeitos glicêmicos e insulinêmicos de todos os tipos de pão. Todas as análises foram realizadas por meio de software SPSS 13.

  1. Resultados

28 de 149 pacientes foram excluídos do estudo (12 por ausência no segundo dia, 5 por não comerem todo o pão e 11 por terem glicemia de jejum acima de 199 no segundo dia). O estudo foi concluído com 121 pacientes (77 mulheres, 44 homens). A idade média dos pacientes foi de 57,1 anos e a duração média do diabetes foi de 6,4 anos. Níveis médios de pressão arterial foram 141,3 mm/Hg sistólica e 83.06 mm/Hg diastólica. A média de índice de massa corporal (IMC) foi de 31,25 kg/m2. Circunferência média da cintura foi de 103,3 cm para mulheres e 102,2 cm para homens. 90 pacientes estavam tomando medicamentos antidiabéticos orais, 17 estavam tomando insulina basal sozinha ou combinada com hipoglicemiantes orais e 14 estavam apenas seguindo dieta. Os dados demográficos dos participantes do estudo são apresentados na Tabela 2. Para todos os grupos, a variação da glicemia durante o período de 2 h apresentou uma curva similar. A glicemia atingiu o nível mais alto aos 90 min e, em seguida, começou a diminuir (Fig. 1).

As diferenças de glicemia entre amostras da segunda hora e de jejum foram 75,05 mg/dL com pão de trigo integral e 77,66 mg/dL com pão branco no primeiro grupo (p = 0,414); 94,91 mg/dL com pão de farelo de trigo e 78,3 mg/dL com pão branco no segundo grupo (p = 0,153); 103,9 mg/dL com pão de centeio e 82,72 mg/dL com pão branco no terceiro grupo (p = 0,124). As diferenças nos níveis séricos de insulina entre amostras da segunda hora e de jejum foram 34,56 U com pão de trigo integral e 27,35 U com pão branco no primeiro grupo (p = 0,441); 29,65 U com pão de farelo de trigo e de 25,89 U com pão branco no segundo grupo (p = 0,496); 40,35 U com pão de centeio e 36,15 U com pão branco no terceiro grupo (p = 0,569). Nenhuma diferença significativa foi encontrada nos efeitos glicêmicos ou insulinêmicos entre os quatro tipos de pães quando comparados um ao outro (p = 0,093 para efeito glicêmico e p = 0,297 para efeito insulinêmico) (Tabela 3).

Tabela 2 – Dados demográficos do grupo de pacientes que participou do estudo

  N Idade (anos) IMC

(kg/m2)

Circunferência da cintura (cm) Tratamento
homens mulheres dieta aAOH bBI ou BI+AOH
Grupo 1 39 55.6 30.40 100.6 109.9 8 23 8
Grupo 2 42 56.1 32.19 101.8 108.9 4 36 2
Grupo 3 40 59.8 31.10 104 99.8 2 31 7
Todos os grupos 121 57.1 31.25 103.3 102.2 14 90 17

a AOH: agente oral hipoglicemiante.
b IB: tratamento com insulina basal.

Tabela 3 – Comparação dos efeitos glicêmicos e insulinêmicos entre todas as categorias de pão com o pão branco

  Tipo de pão aDiferença de glicemia (mg/dL) bDiferença de insulinemia (U)
Grupo 1

n = 39

Trigo integral

Branco 1

75.05

77.66

p = 0.414 34.56

27.35

p = 0.441
Grupo 2

n = 42

Farelo de trigo

Branco 2

94.91

78.3

p = 0.153 29.65

25.89

p = 0.496

 

Grupo 3

n = 40

Centeio

Branco 3

103.9

82.72

p = 0.124 40.35

36.15

p = 0.569

a Diferença entre a glicemia da segunda hora e glicemia de jejum.
b Diferença entre a insulinemia da segunda hora e em jejum.

doi:10.1016/j.diabres.2008.02.010

Figura 1. Efeitos glicêmicos de diferentes tipos de pão utilizados em nosso estudo.

  1. Discussão

Este estudo demonstrou que, ao contrário do que é amplamente aceito pelo público, o efeito do pão branco sobre o aumento da glicemia de pacientes com diabetes mellitus tipo 2 não diferiu do efeito de outros tipos de pão. Muitos estudos têm demonstrado que dietas de baixo índice glicêmico e maior teor de fibras diminuem o risco de desenvolver diabetes tipo 2 e doença cardíaca, contribuem para uma maior qualidade de vida em diabéticos e têm algum efeito preventivo e curativo contra a resistência insulínica e síndrome metabólica [1- 3]. Pacientes diabéticos são recomendados para incluírem cereais em suas dietas [4]. O grão de cereal consiste em endosperma, embrião e farelo. O processo de moagem separa o farelo e o embrião do endosperma. O endosperma é rico em amido. Outros nutrientes estão concentrados na camada externa do grão. Consequentemente, o conteúdo nutricional dos grãos refinados diminui, contendo mais amido. A principal diferença entre os alimentos de grãos integrais e de grãos refinados é que em alimentos de grãos integrais, o farelo e o germe são mantidos [5]. Fibras mucilaginosas, como o β-glucano em pão de aveia, retardam o esvaziamento gástrico e fazem com que a glicose seja liberada na circulação mais lentamente [6,7]. Devido à digestão mais lenta de cereais integrais, eles podem elevar menos a glicemia pós-prandial em diabéticos [8]. O tamanho das partículas de cereais integrais é um dos fatores que definem os seus efeitos fisiológicos. O farelo não processado retarda o esvaziamento gástrico e acelera o trânsito pelo intestino [9]. Em nosso estudo, a alteração glicêmica apresentou uma curva semelhante em todos os grupos, com pico aos 90 min. Portanto, não houve nenhuma diferença de absorção refletindo o efeito do conteúdo de fibras entre os tipos comparados de pão.

Existem outros estudos que sugerem que diferentes tipos de pão não diferem em termos de efeito glicêmico em testes de refeição isolada. Liljeberg et al. relatou que em testes de refeição isolada, respostas glicêmicas e insulinêmicas a produtos de cereais à base de aveia ou cevada integrais eram indistinguíveis daqueles com pão branco [10]. O valor de índice glicêmico pode variar entre os indivíduos e entre medições repetidas para diferentes indivíduos. Observamos variabilidade interindividual de respostas glicêmicas para o pão branco. Vega-Lopez et al. relataram que a variabilidade interindividual é maior do que a reprodutibilidade intraindividual de valores de índice glicêmico para pão branco comercial [11].

O poder do nosso estudo é que o número de grupos de pacientes era maior do que de estudos semelhantes, e todos os pacientes em cada grupo também comeram pão branco. Visto que os pacientes comeram pão branco no dia imediatamente subsequente, a possibilidade de qualquer mudança de estilo de vida ou variação metabólica é relativamente baixa.

O ponto fraco do nosso estudo, por outro lado, é que os tipos de pão consumidos não sugerem quaisquer outros efeitos além de efeitos glicêmicos e insulinêmicos de curto prazo. A ausência de qualquer diferença significativa nos níveis de insulina pós-prandial entre os quatro tipos de pães em nosso estudo não exclui os possíveis efeitos a longo prazo de diferentes pães. Este estudo por si só não é suficiente para comentar sobre os efeitos de diferentes tipos de pão na melhora do controle do diabetes.

Apesar de efeitos favoráveis dos componentes contidos nos pães integrais, tais como o grão, o farelo, a fibra, magnésio, etc. mostrados numa série de estudos [12,13], deve notar-se que a quantidade de pão na dieta de diabéticos deverá ser limitada. Pode ser uma melhor opção receber as fibras e vitaminas necessárias de grãos de cereais, verduras e leguminosas em vez de pão.

A maioria dos pacientes em nosso país acreditam que o consumo de pão de trigo integral é essencial em uma dieta para diabéticos. Isso pode levar os pacientes a comer quantidades excessivas de pães, sendo um empecilho para a estabilidade da glicemia e do peso. Este estudo demonstra que os tipos de pão consumidos como alternativa ao pão branco em nosso país para diabetes ou obesidade não têm menor efeito na elevação da glicemia do que pão branco, e excesso de consumo de tais de pães na dieta de diabéticos poderia ser um fator impedindo um bom controle glicêmico.

Agradecimentos
Agradecemos a Doygun Bread Inc. pelo seu apoio assando os pães utilizados em nosso estudo. Este estudo não tem qualquer patrocinador financeiro.

Conflito de interesse
Os autores afirmam não ter nenhum conflito de interesse.

Referências
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